Autonomia


Hoje Paulo Freire faria 100 anos de vida. A palavra que pra mim melhor define sua teoria é Autonomia. Na pesquisa de mestrado refleti sobre autonomia no contexto da Programação Criativa, que é um tipo de programação de computadores onde o objetivo pode ser a criação de algo expressivo e é marcado por um processo experimental.  A Programação Criativa tem sido um espaço de criação e critica que tem dispertado cada vez mais o interesse de pessoas em todo o mundo. Mas isso é assundo pra outra publicação. Segue:


Autonomia pode significar muitas coisas, como no mercado de trabalho, onde autonomia pode significar a capacidade que o indivíduo tem de resolver problemas sozinho. A autonomia plena inclui também a possibilidade de o sujeito escolher quais problemas resolver (ALMEIDA e RICCIO, 2011). A arte, e por consequência a arte feita em código, imbui no fazer a ideia de autonomia plena e atribui ao artista-programador a ideia de que no fazer artístico estaria a liberdade criativa.

Para autores como Paulo Freire (2002, p. 121), autonomia diz respeito ao amadurecimento do ser em si, às experiências acumuladas ao longo da vida. O indivíduo é percebido como condutor do seu próprio processo na busca de resolução de problemas. No contexto da programação criativa, isso pode ser observado nas soluções algorítmicas e na criação de suas próprias ferramentas.

A leitura do mundo precede a leitura da palavra (…) A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. (FREIRE, 1988)

Quando Paulo Freire discute autonomia e uma pedagogia libertadora, está discutindo um processo de libertação de uma pedagogia que visa apenas o conhecimento técnico. Freire reconhece que quando o conhecimento dialoga com a realidade das pessoas, a capacidade de aprendizado aumenta.

O aprendizado do software, auxiliado pelas artes, beneficia-se das qualidades sensoriais e críticas. Não basta apenas saber decodificar a palavra ou o comando no software, o aprendizado deve ser acompanhado por uma visão crítica da realidade. É através da criação e compartilhamento de ferramentas e da difusão do conhecimento que o artista-programador colabora para a construção dessa outra realidade.

É nesse sentido que a arte agrega tanto à programação criativa, visto que ela dá ao conhecimento técnico da programação uma oportunidade de se expressar e de se conhecer através dessa expressão, bem como de refletir sobre as possibilidades que a programação traz ao mundo, discutir o mundo tecnologizado, problematizar a realidade e desenvolver esse critica tão importante para essa autonomia eclodir.

O processo de aprendizado proposto por Freire está interessado em fazer perceber as contradições do mundo, as injustiças e os mecanismos limitadores e exploradores da nossa força de produção enquanto trabalhadores, que no nosso contexto podemos chamar de usuários. Para perceber isso, é necessária uma educação que questione, que permita ao sujeito ver além das possibilidades do que está determinado no desenho das interações mediadas nas plataformas digitais e limitada em interações através de suas interfaces.

Edgar Morin (2003) situa autonomia numa perspectiva social, o indivíduo enquanto numa relação com o meio:

[…] os seres vivos são auto-organizadores que se autoproduzem incessantemente, e através disso despendem energia para salvaguardar a própria autonomia. Como têm necessidade de extrair energia, informação e organização no próprio meio ambiente, a autonomia deles é inseparável dessa dependência, e torna-se imperativo concebê-los como auto-eco-organizadores. O princípio de auto-eco-organização vale evidentemente de maneira específica para os humanos, que desenvolvem a sua autonomia na dependência da cultura, e para as sociedades que dependem do meio geo-ecológico. (MORIN, 2003, p. 27-28)

A cultura de compartilhamento presente no software livre atravessa a comunidade de artistas-programadores e dá uma pista para compreender uma comunidade tão ativa e tão interessada numa produção artística e no compartilhamento do processo disponibilizando o código.

A partir do movimento pelo software livre e da criação crítica de ferramentas em contextos sociais e criativos torna-se possível, então, entender a postura ativista na utilização e compartilhamento do código, do conhecimento compartilhado enquanto paradigma de organização social.


A imagem que representa essa publicação foi criada para o catálogo de comemoração de 20 anos do Processing, software que desempenha um papel central na comunidade de Programação Criativa, na intenção de responder a pergunta: O que ser parte da comunidade do Processing significa pra você?

AUTO é representado por um movimento de dentro para fora e representa o sentido SELF de Paulo Freire, NO MY está circunscrito e representa o sentido COLETIVO de Edgar Morin.

Referências

ALMEIDA, Doriedson de, e RICCIO, Nicia Cristina Rocha. Autonomia, liberdade e software livre: algumas reflexões. In: BONILLA, MHS., and PRETTO, NDL., orgs. Inclusão digital: polêmica contemporânea [online]. Salvador: EDUFBA, 2011, 188p. Disponível em: <https://doi.org/10.7476/9788523212063>. Acesso em: 13 fev. 2021.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 51. ed. São Paulo: Cortez, 1989.

MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, F. M; SILVA, J. M. (Org.). Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 2003, p. 13-36.


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